Revista Poética

Revista poética editada por Eunice Mendes e Walmor Colmenero "que não conseguiram atravessar o Rubicon..."

segunda-feira, outubro 02, 2006

Revista Poética nº. O


eis
o
enigma:
o
que
se

pode
não
ser
o
que
está
escrito

eunice mendes
santos/sp * primavera * 2005
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AS CORES DA ESPANHA

O amarelo da tua bandeira, Oh! Espanha,
é o dourado dos teus olhos,
é o brilho dos teus campos,
é o claro azul do céu.
Ah! Ver esta cor, é ver a beleza
que nasce nas águas dos rios,
dos peixes, dos filhos que em ti nasceram
É ver no sonho meu, tua realeza.
O amarelo da tua bandeira, Oh! Espanha,
é ver o vestido da bailarina cantando com as castanholas,
o violão, a sedução, a vitória na boca do teu povo.
Ver esta cor, Oh! Espanha,
é ver o que restou de mim.
O vermelho da tua bandeira, Oh! Espanha,
é o sangue do toureiro na arena,
é a força nos dedos dos guitarristas,
é o dançar as danças características do teu povo andaluz,
é ver a força e o vigor da cor,
é ver amada, amante, o amor
que debruça com o olhar, o pensamento que conduz.
O vermelho da tua bandeira, Oh! Espanha,
traz um pouco da infância perdida,
um pouco da infância não vivida,
um pouco da saudade da mulher que deixei um dia.

***

PRANTO PARA FEDERICO GARCÍA LORCA

Vai, poeta andaluz,
estraçalha as muralhas da consciência humana.
Um poeta morre. O verso fica.
Fuente Vaqueros não é mais uma cidade.
É solidão. É eternidade
nos olhos de um menino
que corre nas campinas
com seus pés de vento
e colhe jasmins nos jardins do tempo.
Vai, poeta granadino,
que os querubins embalam o sono eterno dos mortais
e seus olhos de rosa desfolhada no outono.
Quando os cavalos pretos trouxeram a morte,
encontraram você sonhando;
driblando as agruras da vida e a dor da despedida.
Os fuzis, Federico, não sangrarão mais sua pele,
manchada de carinho, paz e solidão.
A palavra em você é faca e rosa de sangue
manchando a arma da guerra civil!
Tem caráter sentimental.
Vai, poeta musical,
sobe ao firmamento e descreve a violeta no verso inacabado,
nas oliveiras e nos trigais celestes,
nos olhares dos anjos espaciais.
Viva a Espanha, meu General!
Meu General, viva a Espanha!
O poeta matou o homem com meias palavras
e foi para o além.
General que um dia foi poeta!
No céu, sagitários encantados com a sua voz,
derrubam, sem querer, poemas nas ruas da Espanha.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Um Poeta na Espanha
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CONTO

A TESTEMUNHA

- Tchau, meu anjo, não demoro. Fica com Deus.
Quase todas as tardes, quando pensa que durmo, minha mãe sai,
nunca sem antes roçar os lábios em minha testa. Nesse momento, sintonizo minha mente de filho com a sua e me vou com ela.
Do berço, posso vê-la pelas ruas com seus sapatos de salto e
passos apressados. Posso entrar num escritório que não é o de meu pai e assistí-la abraçar e beijar um homem que não conheço.
Aí a deixo, porque não entendo o que acontece naquela sala
e porque, de vez em quando, mamãe pressente minha presença e fica preocupada, com uma dor de culpa no peito.
Ainda durmo, quando ela chega afogueada, atirando para longe
os sapatos, vestindo de novo a roupa caseira, tirando o batom com algodão.
- Vem com a mamãe, querido!
Enquanto me prepara a água do banho, minha mãe canta baixinho.
Ao me tomar nos braços, suspira. E quando estamos face a face, seus olhos têm brilho e doçura. Iguaizinhos aos das mulheres com quem papai sonha de noite...

MADÔ MARTINS
Santos/SP
in: Paixão e Morte

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DESEJO

que alguma coisa gritasse
ainda que fosse o silêncio
ou o vazio do espaço
o sonho amordaçado
o degredo
o nó do laço

que alguma coisa morresse
e depois ressuscitasse
renovando tudo
e depois ficasse
como destino
ou até passasse
como vento noturno
sobre adormecida face

que alguma coisa se movesse
e de si se levantasse
ainda que fosse nos olhos
uma tardia lágrima
ou nos lábios um esboço
de sorriso ou cansaço

que alguma coisa me cobrisse
como manto de vento ou água
e que fosse apenas isso
o que me bastasse
o que me descobrisse
e eu fosse:
nada

***

o mesmo gesto
diante do espelho
e sinto o cheiro
da água velva
então
presença e ausência
são a mesma pessoa

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Sonhares (2003)
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teus olhos verdes água
deságuam silêncios
destilam sombras
suspensos no teu rosto de esfinge

tudo se recolhe
tudo se reserva
e depois se renova
tuas setas de seda
teus raios de sol
oblíquos
como chuva fina
pontilhando a areia

teus cabelos soltos
ao vento
absortos
desenham sonhos nas nuvens
mas no teu peito tens uma âncora
nos teus olhos frios navegam navios
onde te embarcas
onde te atracas
em horizontes fugidios
teus olhos verdes água
são duas barcas
são algas marinhas
filandras

por dentro te rondas
sobrevoas
teus céus e teus mares
celas de areia
te assopras
e descansas
deitado ao sol posto

um pássaro passa
sozinho sobre o teu rosto
e atravessa o céu dos teus olhos
abrolhos

te fechas
feito sombra de arvoredo
teus olhos mansos adormecem
teus escuros serenos
e como duas estrelas
navegam
teu vago amor
abstrato desejo
sob o negro céu das noites
deleites

teus olhos
me dão tanto medo...

JOANA MARQUES
Santos/SP
in: Urdidura * primavera 2002
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DOIS HAICAIS

PÉTALA CAÍDA
QUE TORNA DE NOVO AO RAMO
- UMA BORBOLETA !

MORITAKE
(1473 ? 1549)

***

NA SOPA FRIA
RELETIDOS
OS BAMBUS DO QUINTAL

RAIZAN
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CRÔNICA

QUIXOTES

Eles carregam uma lança que não mata dragões, simplesmente porque não os encontram no caminho. Há só moinhos de vento mesmo, gigantescos, forçando-os a contornar sua larga base de pedra se quiserem chegar a alguma parte.
São esses os Quixotes que hoje movem o mundo. Têm sonhos - não visões fantásticas - e peregrinam por La Mancha - que pode ser qualquer lugar - a persegui-los, esperançosos ao invés de angustiados, firmes ao invés de vacilantes, corajosos ao invés de apavorados. Caso montem pangarés, não os imaginam puros-sangues. Às vezes existem fiéis escudeiros ajudando-os, a maior parte das vezes, porém, andam e lutam sós, com suas lanças que podem ser forjadas
na vontade, na determinação, na pureza das intenções ou um pouco em cada uma destas motivações. Como única certeza o que querem construir para fazer deste um planeta melhor para todos, os que já estão aqui e os que virão. Suas Dulcinéias, às quais devotam profundo amor, têm faces e jeitos diferentes: são a Humanidade.
Quixotes assim há em todas as áreas de atuação humanas. Podem ser vistos debruçados sobre balcões de laboratórios, entre tubos de ensaios e apetrechos do tipo, buscando a cura para esse e aquele mal que apagam a chama da vida no corpo de um semelhante. Alguém que naquele exato instante está sofrendo com Aids numa aldeia africana ou com gripe do frango numa vila asiática.
Estão em mesas de reuniões procurando formas viáveis de diminuir desigualdades entre as muitas pátrias que se fizeram na Terra, atuando na saúde, educação, agricultura, tecnologia, sociologia, enfim, onde houver carência e couber o sonho. São encontrados na arte também, aí então mais solitários ainda, determinados a opor o encantamento do espírito à degradação da carne que se perde nos labirintos dos prazeres que não permanecem. E que são tantos, que nem vale a pena citar nenhum (todos nós já experimentamos algum deles um dia e soubemos na hora que não nos completariam).
Há homens, infelizmente, que se travestem de Quixotes, dizem ter sonhos quixotescos e até contornam moinhos e mais moinhos que vão servindo de obstáculos a sua caminhada. Arrebanham legiões de Sanchos Panças, que podem chegar a dezenas de milhões, e um dia chegam aonde pensam que deveriam estar. Cedo ou tarde se vê que o sonho que os movia era só deles. Ou então um sonho que surgiu puro, mas foi se contaminando ao longo do percurso por conta de muitos passos em falso, alianças equivocadas e - aí sim! - visagens pra lá de fantásticas nascidas de um visceral delírio de poder. Mesmo a lança que empunhavam era de mentira. E a Dulcinéia que amam está refletida no espelho.
A história do mundo está cheia de personagens assim, que na verdade não tinham sonhos nem eram Quixotes. Não passavam de ambiciosos comuns.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Jornal LetraLivre * 20/08/05
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ABANDONO AS COISAS DO MUNDO

Entrego-me ao sono
Vozes rostos objetos sem dono
flutuam vagamente
Em um gramado concreto
alguém sintético
semeou um morfema
Do outro lado, telefonema:
- Mudaram as regras do jogo!
Mudaram as regras de novo!
insiste a voz aflita.
Pergunto que jogo que normas que regras
Que novo?
Ninguém sabe de nada
mas quase todos fingem que sábios
Por desfastio anoto seus conselhos
Retorno ao aparelho
na cama adormecido
em ridículo pijama

RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
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VAN GOGH EM MIM

Deixei que as flores da grama
qual gemas de ovos quebrados
escorressem assim... Amarelo-ouro,
girassóis de Van Gogh em mim.

Tatuada de luz e de cor
percorri o caminho derradeiro:
Trilha sinuosa, vales e morros
- espaço de alegria e tanta dor.

Pelos poros, clarões inusitados
descobrem o novo, solo fértil
não arado. E no celeiro,
sementes pelos vãos...

Em minhas mãos, agora escorre
a seiva. Já semeei no corpo-terra
- campo-imenso - grãos de amor
da vida que me habita.

REGINA ALONSO
Santos/SP
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mamãe lavava os pratos
enquanto fazíamos nossas lições
depois encapava nossos livros
com papel de seda colorido
e colava na primeira folha
de cada caderno
antigas decalcomanias
com motivos de pássaros e flores

e não sabíamos que isso era amor

***

tanta loucura por aí
e eu aqui
parada
minha loucura segura
guardada
eu presa de mim
ancorada no nada

NINA RODRIGUES
Santos/SP
in: Frenesi - 1988
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RUÍNAS

Tu estarás nos meus versos,
deitada, espichada,
louca, louca... ofegante
abraçada em trapos.

Tu estarás nos meus versos
despenteada, sonolenta,
enrolada no lixo
que te cerca.

Tu estarás
com as mãos em concha,
no gesto de molhar o rosto
na poça fétida.

E as ruínas
de todos os lados
a abrigar restos de comida
emolduram insetos esquecidos.

Tu estarás, sim,
nas páginas de um jornal
que serve como cama aos cães
e a outros como tu.

No peito de uma mãe
que não adivinhou tal sorte,
na angústia do poeta
de te querer salva.

Tu estarás no meu livro
vertical ou horizontal.
Tu estarás nos meus versos
se não te salvo... te verso!

TERESINHA TADEU
Santos/SP
(1941 - 2001)
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limite profundo e preciso
das volúpias ancora
na nudez do silêncio

sobre as flores
como nuvens
sombreiam e destilam luzes

mas meu amor não queda
vôo tímido de eternos abismos
como a chuva límpida
como as nuvens nuas
e sempre renovadas
no desatino dos sonhos
entre as bocas desnudas
da essência vencida
sempre o amor
lúcido e louco
o amor inunda e alarga

GREGORIO NUCCI
São Paulo/SP
in: Palavras Tortas - 1993
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SONETO DO VELEIRO
Para Jeferson Tavares

Os momentos que temos
são somente dois:
o antes e o depois;
o agora nós tememos...

Pois desde que você se foi
as dúzias não tem mais doze
a tristeza não tem mais dose
e até mesmo meu sorriso dói

No horizonte da esperança
cabe apenas a lembrança
de um veleiro cruzando mares

E se sou Mar, sou vela e vento
e tu és meu Augusto alento
de que a vida ocorre aos pares.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
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KOAN

Num dia chuvoso, quando estava sentado com um discípulo no salão do templo e ouvindo as gotas d'água batendo suavemente no telhado e no pátio, o mestre Jing-qing perguntou ao outro monge:
"Que som é aquele lá fora?"
"É a chuva," respondeu o monge.
O mestre disse:
"Ao buscar fora de si mesmos alguma coisa, todos os seres se confundem com os significados."
"Então," replicou o discípulo, "como deveria eu me sentir em relação ao que percebo, Mestre?"
O sábio apenas disse:
"Eu sou o barulho da chuva."

OS EDITORES:

Eunice Mendes:
Formada em Jornalismo, tem trabalhos nas áreas de Fotografia, Artes Plásticas e Artesanato de Reciclagem. Edita, com Walmor Colmenero, a revista artesanal de divulgação literária
POETIZANDO, desde 2001. Edita também a folha poética A POETISA e o fanzine ÁRVORE AZUL. Tem poemas publicados em jornais, revistas, fanzines, blogues e no site:
www.gargantadaserpente.com
Integra o grupo poético ARTESANIA.
Livros: Flores e Frutos (2002), Sino dos Ventos (2002), Lua na Janela (2002), Sonhares (2003), Cerimônia das Flores (2003), Aurora Gris (2003), Nuvens de Sol (2003), Espaços do Vazio (2003), todos de poesia.

Walmor Dario Santos Colmenero:
Nasceu em Santos/SP, no dia 25 de julho de 1963, filho de Zuleika Santos Colmenero e Manoel Colmenero. Edita, com Eunice Mendes, a revista artesanal de divulgação literária
POETIZANDO, desde 2001. Publica também a folha poética O POETA e o fanzine ESCRITOS, ambos literários. Tem poemas publicados em fanzines, revistas, blogues e no site:
www.gargantadaserpente.com
Premiado em vários concursos nacionais, em 2004 foi um dos finalistas da fase regional do Mapa
Cultural Paulista. Edita o blog: www.revistapoetizando.blogspot.com
Integrante do grupo poético ARTESANIA.
Livros: Um Poeta na Rua (1990), Memórias (2002), Tributo Vivo (2003), Um Poeta na Itália (2005), Um Poeta na Espanha (2006), Poemas Bluseiros (2006), Bagagens de Ontens (2006), Lá Fora Adentro (2006).

DICAS DE LEITURA:

AGOSTINA SASAOKA:
www.gargantadaserpente.com

GLAUCO MATTOSO:
www.sites.uol.com.br-glaucomattoso

AMARALVIEIRA:
www.amaralvieira.com

RICARDO MAINIERI:
www.mainieri.blogspot.com

RICARDO ALFAYA:
www.nozarte.blig.ig.com.br

IRACEMA ANANIAS:
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REVISTA POETIZANDO:
www.revistapoetizando.blogspot.com